Você realmente quer aquilo que deseja?
Por Renata Alves


A blogueira Júlia Faria tem um podcast chamado Meu Lugar de Falha. Em um dos episódios, ela destrincha, de acordo com seu ponto de vista, uma pergunta que ficou ecoando em mim:
Você revisita seus desejos? Será mesmo que continua desejando algo que começou a desejar há meses ou anos?
A partir daí, minha mente começou a trabalhar intensamente nessa pergunta aplicada à minha própria vida.
Revisitando cada um deles, percebi que somente o desejo intelectual de me tornar mestre em Filosofia permaneceu. Os demais deixaram de existir.
Percebi que não faz mais nenhum sentido desejar algo que já não faz sentido na minha vida de hoje.
Quantas coisas? Quantas pessoas precisamos revisitar para descobrir o que permanece e o que já não pertence mais ao nosso campo de conquista?
Vou contar uma história.
João se encontrou com Maria somente duas vezes.
Nessas duas vezes, Maria se sentiu tão acolhida e protegida que acreditou piamente que naquele desconhecido abraço demorado, sem um único beijo, estaria o amor que ela tanto queria sentir.
E essa certeza foi crescendo dia após dia.
João, então, começou um jogo de idas e vindas.
Maria, que estuda neurociência e comportamento diariamente, não percebeu imediatamente o padrão. E aquilo foi se tornando uma obsessão.
Freud fala sobre isso em Luto e Melancolia. O luto, de maneira bastante resumida, pressupõe a elaboração de uma perda que pode ser reconhecida. Na melancolia, porém, a relação com a perda é mais complexa: o objeto perdido pode sequer estar inteiramente consciente para quem sofre.
E, leitores invisíveis, essa é danada.
Porque quando não existe uma história concreta para elaborar, sobra espaço demais para o “e se”.
E não existe território mais devastador para a imaginação do que o “e se”.
Maria queria ter lido Freud antes.
Talvez — só talvez — aquele texto a tivesse trazido de volta para si.
Depois de idas e vindas, noites de insônia, indecisão e a angústia de um relacionamento que nunca existiu, Maria se esgotou emocionalmente.
E então mudou a ótica.
Pensou:
Se eu amo o desejo sem nunca tê-lo vivido por completo, talvez eu possa concretizá-lo. Talvez, quando eu finalmente o tiver, a obsessão desapareça.
E assim se fez.
Ela encontrou João.
Conversaram.
Beijaram-se.
E, alguns dias depois, em um dia qualquer, Maria olhou para João de longe.
E foi ali.
Não houve uma grande revelação. Nenhum raio caiu do céu. Nenhuma música tocou ao fundo.
Ela apenas olhou.
E percebeu que tudo, absolutamente tudo, havia sido uma ilusão.
Aquele João ali era lago.
E ela merecia o oceano.
Naquele instante, soube que ele jamais seria o amor da sua vida.
E, como num passe de mágica, voltou para ela.
Aprendemos com tio Lacan que não foi mágica.
O desejo simplesmente se desfez.
Benditos sejam os contos da Disney. Hahaha.
Maria percebeu que João havia aparecido em sua vida em um momento de muita vulnerabilidade. E, a partir disso, ela criou um João do jeito que sempre quis.
A projeção em cima do outro é algo tão intenso que eu nem sei muito bem como dizer isso aqui.
Talvez porque, às vezes, a gente não esteja apaixonado por alguém.
Esteja apaixonado pelo que imaginou que alguém poderia ser.
E, por fim, Maria percebeu que João não era — e nunca seria — seu amor.
Porque, para ela, amor é sossego.
É certeza.
Obstáculos, sim.
Diferenças, também.
Mas a dúvida permanente não existe quando se sente segurança emocional.
Talvez seja por isso que precisamos revisitar nossos desejos.
Para descobrir se ainda queremos aquilo que um dia quisemos tanto.
Para perceber quando estamos insistindo em algo que já não conversa com quem somos hoje.
E, principalmente, para não aceitarmos jamais o pequeno só porque um dia acreditamos que ele era tudo o que queríamos.
Porque, às vezes, crescer também é descobrir que o desejo mudou.
E que ainda merecemos o muito.
Então me diga:
você realmente quer aquilo que tanto deseja?



